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19 janeiro, 2007

Desilusão

Lilases, de Van Gogh.

Era todo desilusão, e isso lhe enfraquecia; ele nunca esteve mais vulnerável do que agora, mais oscilante do que agora. Ele amou todo o seu amor, incondicionalmente, intensamente, irrompendo em desatino e inconseqüência, como se atirasse de um penhasco sem fim, cairia por uma eternidade, e por fim, quando encontrasse o chão não morreria, pois lhe parecia demasiadamente piegas morrer por amor, morrer por paixão. Depois de uma eternidade encontrou o chão identificável do abismo (ora quente, ora frio), e dissolveu-se em dor, a dor que jamais suportaria (pensou antes de se atirar) se não encontrasse o seu chão sem suas penas e lilases.

A dor lhe era absurdamente incômoda, como gelo que se espalha num corpo vazio com a incumbência de petrificar-lhe a alma, fazendo-a tão pesada, incapacitando-a de subir e vagar, e ela, mais pesada, de forma que nunca fora antes, pareceu congelar-se apenas para que ele sentisse a dor de se entregar a uma paixão, jogando-se, como se joga de um abismo, e não encontrar as suas penas e lilases lá no fundo.

A dor ultrapassava a barreira do coração, que agora estava fino e quebradiço como pó de arroz, e invadia o seu corpo com sensações tão dolorosas quanto à dos seus sentimentos. A cabeça comprimia-se mais apertada entre o crânio, irrigando o seu sangue para a superfície do seu corpo, intumescendo a sua pele em tons de vermelho e roxo. Os membros e o dorso estavam moídos como cana de engenho.Seus olhos gritavam vermelhos entre dois círculos negros. Quando encontrou o chão do abismo sem as suas penas e lilases, converteu esse num lago, que poderia se chamar o lago do desespero (se esse não se tornasse mar), de lágrimas revoltas que não assimilavam a ausência dos lilases. E os círculos negros dos olhos, encobrindo os tons de vermelho e de roxo denunciavam as suas noites sem dormir, as suas noites de prantos e alucinações.

Deitado no chão, sem sua cama macia e colorida, sufocava-se, afogava-se na relutância das lágrimas e acovardava-se com a escuridão das aureolas negras em volta dos olhos. Não se mexia, e tentava imaginar, não fosse a dor do peito e do cérebro comprimido entre o crânio, como seria se não se jogasse, como seria se tivesse hesitado a beira do penhasco e fosse covarde como por tempos pensou em não ser. Talvez se tivesse sido dominado pelo desejo do intangível, sua dor seria diferente, menos sarçosa. Pois com os desejos intangíveis não se sofre tanto, e existe uma relação de respeito – “não te dou, mas conforta-te com a idéia de ter”, e até esse momento ele convivia harmoniosamente com o desejo, e não com a perca, não com a resolução final e o abismo sem suas penas e lilases.

2 comentários:

Ernesto Belote disse...

Parabéns Zé, tomara que vc pegue o gosto pela blogagem, e escreva sempre mais. Estarei acompanhando.

Anônimo disse...

Deseperante. Que dor é essa?