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19 janeiro, 2007

Soleira duvidosa

Porta della notte, de Angello Mazzolene

Estava parado no limiar da soleira, deu um mergulho na sua vida, avaliou nuns segundos etéreos quais das chances escolheria para si. A penosa decisão dividia-se em duas estradas, uma ardilosa, outra ainda mais, distintas, como é a noite para o dia, breu e luzidio, mas qual decidir. Hesitou (enquanto mergulhava) Se o caminho mais curto lhe fosse conveniente, se abrisse àquela porta, bastante familiar, a porta que lhe soprou a vida, sabia que voltaria a enfrentar os sus antigos medos, recomeçar, recomeçar o que conhecia muito bem, a tirania, a hostilidade, a incongruência, a enfermidade gorgolejante; mas o que haveria de tão tenebroso na trivial tarefa de abrir a porta de sua própria casa. Poderia não faze-lo, daria meia-volta e sem deixar rastros sacudir a poeira dos sapatos gastos e tentar a fuga, a fuga para um mundo sem as mesmas qualidades do qual já habitava. Despertaria num mundo novo, sem fronteiras, sem limites, sem soleiras duvidosas.


Mas por que desistir de entrar, a casa que o abrigou até hoje, acolheu-o, protegeu-o, proveu-o, porque abandonar quem lhe soprou a vida, quem num momento de intraduzível prazer jorrou-lhe, como água corrente no leito de um rio, a vida. Porque abandonar o “porto seguro” (a tirania, ah... a tirania). Como sentimentos tão díspares fazer-lhe-iam tomar difícil decisão. Amor e ódio. Como poderia odiar o próprio pai amando-lhe tanto (a tirania), amor sob uma forma de adoração, admiração intransponível.

Mas se saísse, se desse meia-volta, abandonasse sua crisálida, voasse, voasse para bem longe, longe da hostilidade, longe da tirania, longe da incongruência suplicante, se voasse por pastos ora verdes, ora ocres, inconseqüentemente, à espera do intangível, à mercê do intangível, todavia longe do medo, longe das velhas sensações que o dominavam, não teria a mesma segurança (deveria se importar?), seria livre (até quando?), sobretudo livre. Suportaria os gritos desesperados: e o amor, e o amor...

Abriria, como sempre fez, a porta, e lá estaria a hostilidade e tirania personificadas em forma de pai, censurando-o, elogiando-o, suplicando-lhe amor, suplicando-lhe uma palavra terna, um simples eu te amo, você é a minha vida, eu sou criador, você criatura, é meu, me pertence e ninguém mais; seus olhos gritariam isso. Ele não falaria, era uma pedra que sofria as intempéries do tempo, da fugacidade, gasta, velha, sofrida, suplicando amor, sabia que era amado, porém, precisava de afirmação e rogava por tal, chorava todo o seu inverno, sua chuva agridoce suplicando amor.

Fugiria, deixaria no primeiro ímpeto o seu velho mundo, enfrentaria novas hostes que não suplicariam amor. Seria ferido, ganharia cicatrizes mais tênues, mais negras.

Oscilava. Quais dos caminhos escolher. A hostilidade nociva, ou a hostilidade que na mesma proporção que fere, beija, como um rio beija a sua margem, languidamente, levemente doce.

Fugiria, sim, isso lhe parecia bem obstinado. A fuga fazia parte de si, a fuga almejada. Fugiria de todas as hostilidades, dos medos, do amor. Voltou do seu mergulho. Abriu a porta, atirou-se, estava escuro como sempre, o caminho de casa. Alguém chamou o elevador e ele não veio.

Um comentário:

Toinha disse...

Eu não tinha lido este...achu q pulei..rs...mas..como sempre lindo, como já lhe disse, verdadeiro por demais..rs...Obrigada por escrever, assim..assim...assim...tão Toinho de ser...beijos :)